“Doutor, disseram que meu remédio para osteoporose pode prejudicar o osso da boca. Devo parar?”
Essa pergunta traduz um dilema que aproxima a Odontogeriatria da Geriatria. Entre o benefício de prevenir fraturas e o receio de complicações odontológicas, a pessoa idosa pode receber orientações contraditórias e ficar insegura sobre ambos os tratamentos. É nesse encontro que precisamos substituir o medo pelo cuidado compartilhado.
A relação entre osteoporose e saúde bucal vai além dos medicamentos. Estudos apontam uma associação entre baixa densidade mineral óssea e periodontite, doença inflamatória que compromete os tecidos de sustentação dos dentes. Entretanto, associação não significa causa: não podemos afirmar que a osteoporose, isoladamente, provoque ou determine a perda dentária. Ainda assim, esses achados reforçam a importância de olhar para a saúde óssea e a saúde bucal de maneira integrada.
No cuidado à pessoa idosa, uma saúde bucal preservada significa comer com conforto, conversar, manter a autoestima, sorrir e participar da vida social. Uma avaliação centrada apenas no número de dentes ou no resultado da densitometria deixa de fora perguntas essenciais. Essa pessoa consegue realizar sua higiene? Precisa de ajuda? Sua prótese machuca? O plano de cuidado cabe em sua rotina e nas possibilidades de sua família?
O lado do “amor” aparece quando os tratamentos se encontram em um objetivo comum: preservar autonomia e qualidade de vida. O lado do “ódio” surge, sobretudo, com o temor da osteonecrose dos maxilares relacionada a medicamentos, uma complicação em que uma área do osso da boca perde vitalidade e apresenta dificuldade de cicatrização.
Medicamentos modificadores ósseos, como os bisfosfonatos ou o denosumabe, utilizados no tratamento da osteoporose, podem estar associados a essa condição. Porém, o risco é baixo nas doses empregadas para osteoporose e maior nos esquemas utilizados em determinados tratamentos oncológicos.
Na prática, a prevenção começa com medidas simples: acompanhamento odontológico, higiene adequada, controle de infecções e atenção às próteses que provocam feridas. Sempre que possível, problemas bucais importantes, que exigem intervenções invasivas, como extrações dentárias ou implantes, devem ser tratados antes do início da terapia para osteoporose. Entretanto, essa organização não deve atrasar indevidamente a proteção contra novas fraturas, especialmente após uma fratura por fragilidade. Da mesma forma, estar em tratamento não deve impedir o atendimento odontológico necessário.
Outro ponto merece destaque: suspender o medicamento por conta própria não é uma solução segura. No caso do denosumabe, a interrupção ou o atraso sem planejamento pode provocar perda rápida da proteção óssea e aumentar o risco de fraturas vertebrais. Qualquer ajuste deve ser discutido entre o profissional responsável pelo tratamento da osteoporose e o cirurgião-dentista.
Esse diálogo precisa chegar à pessoa idosa em linguagem compreensível. Ela não deveria ter de escolher em qual profissional acreditar, nem carregar sozinha a responsabilidade de conciliar recomendações. Cabe à equipe construir um plano coerente, explicar benefícios e riscos e incluir suas preferências nas decisões.
Talvez, portanto, essa relação tenha menos de amor e ódio e mais de uma parceria. Para isso, a formação em Geriatria, Gerontologia e Odontologia deve caminhar de forma integrada, com responsabilidades compartilhadas.
Envelhecer com cuidado integral exige que a saúde bucal esteja presente nessa conversa.
Referências
- Kloeckner F, et al. Skeletal bone density is associated with periodontitis: systematic review and metanalysis. Brazilian Dental Science. 2024;27(3). doi:10.4322/bds.2024.e4350.
- Ali DS, et al. Antiresorptive Therapy to Reduce Fracture Risk and Effects on Dental Implant Outcomes in Patients With Osteoporosis: A Systematic Review and Osteonecrosis of the Jaw Taskforce Consensus Statement. Endocrine Practice. 2025;31(5):686–698. doi:10.1016/j.eprac.2025.02.016.
- Healthy Bones Australia. Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw (MRONJ) and Osteoporosis: Consensus Statement. 2026. Documento completo.
